Em meio à privação de liberdade detentos do CE obtêm a chance de estudar e conquistar certificados de ensino
Internos recolhidos na Casa de Privação Provisória de Liberdade
III (CPPL III), em Itaitinga, na Região Metropolitana de Fortaleza,
também fizeram a prova com o objetivo de obter a certificação
Detentos e detentas do sistema penitenciário do Estado do Ceará
participaram do Exame Nacional para Certificação de Competência de
Jovens e Adultos (Encceja). Ao todo, 508 apenados fizeram provas com o
objetivo de concluir o Ensino Fundamental e buscar um futuro diferente
depois que atravessarem os muros de concreto das unidades prisionais do
Estado.
A reportagem acompanhou a realização das provas no Instituto Penal
Feminino Desembargadora Auri Moura Costa, localizado na BR-116, em
Aquiraz. A unidade abriga cerca de 580 mulheres em conflito com a Lei.
Cherlene Sousa, 21, estava entre as detentas que realizaram o exame. Ao
lado de outras 10, que haviam terminado o teste, ela comentou sobre as
perspectivas do futuro. "Participo do programa ProJovem e estudo. Me
inscrevi para a prova. Pretendo mudar quando sair daqui", explicou a
apenada.
Faculdade
A jovem ainda não sabe qual curso deseja seguir, mas ressaltou que quer
fazer faculdade. Ela foi detida em 2012 por crime de assalto, foi
julgada e cumpre pena estimada em 10 anos. "Quero ter outra vida. Aqui
me proporcionam estudo, alimentação e trabalho. Meu roubo foi
qualificado, foi em uma loja, mas devo sair em 2015", diz Cherlene.
Em meio aos tons alegres de lilás pintados na parede da prisão, uma
sala cheia de livros chama a atenção de quem passa: a biblioteca da
unidade prisional. Quem cuida do espaço é a interna Daniele da Silva
Cunha, de 25 anos, que cumpre pena por tráfico de drogas. Ela diz que
não tinha experiência com o trabalho de bibliotecária, mas depois se
interessou pelo serviço. "Quando fui julgada, ficava triste e chorando.
Pedi que me dessem algum trabalho e cheguei aqui. Tomara que eu tenha
oportunidade de sair trabalhando", comenta entusiasmada.
Cuidar da biblioteca foi o primeiro trabalho de Daniele, condenada a
três anos e seis meses, mas já cumpriu um ano e seis meses. Indagada de
que agora falta pouco tempo para sair, ela retruca: "É pouco tempo
porquê não é você. Para quem vive dentro do presídio é muito tempo",
ressalta a jovem.
Entre os livros mais locados na biblioteca, Daniele destaca os de
romance e autoajuda e cita um escritor do tema como um dos mais
procurados pelas colegas. A Secretaria de Justiça (Sejus) pretende
aumentar o projeto da biblioteca para todas as unidades penais e
estabelecer uma diminuição de pena. Para cada livro lido seria um dia a
menos sem liberdade.
Além do presídio feminino, as provas do Encceja foram realizadas em
outras unidades prisionais do Estado como a Casa de Privação Provisória
de Liberdade (CPPL III), em Itaitinga. Na CPPL III a reportagem não pôde
conversar com os detentos devido às normas do Ministério da Educação
(MEC) e por questões de segurança impostas pela Secretaria de Justiça.
Dois lados
Um lado pintado e colorido e com salas de aulas. Muitas frases bíblicas
e de autoajuda. Outro lado, não aberto para entrada da imprensa,
mostrava celas mais escuras e cheias de detentos que chamavam a atenção
da equipe de reportagem e pediam para serem filmados.
Segundo o assessor Educacional da Sejus, Rodrigo Moraes, o exame é uma
grande oportunidade para garantir o direito da pessoa privada de
liberdade. "Para que ele possa ser certificado e para nós avaliarmos o
nível de aprendizado tanto dos internos como dos alunos do Sistema
Penitenciário".
O diretor da CPPL III, Marcos Karbage, informa que na penitenciária
funciona uma escola. Ele destaca projetos de tapeçaria, fábrica de bola e
enfeites, que ocorrem em dias alternados. "Na medida em que vão
surgindo os projetos, a diretoria os agrega aos 1.360 internos",
acrescenta.
Jovens prestam exame
Os adolescentes internos nos Centros Educacionais de Fortaleza também
tiveram uma chance de concluir o Ensino Fundamental através da aplicação
do Exame Nacional para Certificação de Competências de Jovens e Adultos
(Encceja) destinado a pessoas privadas de liberdade.
No Ceará, 345 adolescentes em cumprimento de medidas socioeducativas
prestaram o exame durante a manhã e a tarde de ontem, segundo a
Secretaria do Trabalho e Desenvolvimento Social (STDS).
O Estado possui 11 Centros, dos quais oito são em Fortaleza. De acordo
com a STDS, cerca de um terço dos internos, somadas todas as unidades,
participaram da aplicação das provas.
A diretora em exercício do Centro Educacional Patativa do Assaré
(Cepa), Magna Maria Rebouças, coordenou os trabalhos do Encceja
executados no Centro que está dirigindo.
Tranquilidade
Magna enfatizou que a aplicação das provas ocorreu tranquilamente.
"Aqui no Cepa foram utilizadas cinco salas para que 63 adolescentes
participassem do exame. Ocorreu tudo com muita tranquilidade, foi
bastante satisfatório", disse. Contente com o que chamou de "incentivo
para a ressocialização", Magna destacou a importância para os jovens de
conquistarem o diploma do primeiro grau.
"O objetivo é ressocializá-los, incentivá-los a quando retornarem para a
sociedade, continuarem os estudos, incentivando a leitura. É muito bom
ter estas provas para este incentivo".
Para Magna, a sociedade deve focar um novo olhar sobre os jovens. "Esta
é uma experiência positiva. Acredito muito neste trabalho", ponderou.
DN